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Tocantins: Vicentinho Júnior e as digitais na planilha do crime

Brasília aprendeu que inquéritos costumam contar histórias antes mesmo de os personagens conseguirem escrever suas versões. Uns terminam arquivados. Outros atravessam a Praça dos Três Poderes e chegam aos tribunais superiores carregando documentos, planilhas, extratos bancários e coincidências que deixam de parecer coincidências e realmente exploram a cegueira da Justiça. É exatamente esse o cenário descrito em um relatório da Polícia Federal juntado aos autos de uma investigação.

O documento, com mais de 180 páginas, traz consigo provas cabais para levar qualquer criminoso ao cárcere. Os investigadores dedicaram um capítulo ao deputado federal Vicente Alves de Oliveira Júnior, conhecido politicamente como Vicentinho Júnior. Não é um texto de opinião. É a investigação conduzida pela Polícia Federal a partir do material que chancela a participação criminosa do então deputado federal do Partido Progressista do Tocantins.

O que chama a atenção é o fato público e notório de que Vicentinho Júnior é apadrinhado pelos caciques do PP, Ciro Nogueira e Arthur Lira. O apadrinhamento levou o deputado a desfrutar de benesses, livrando-se até de uma busca e apreensão, em um momento em que o país se encontra em uma bolha de escândalos devido ao banqueiro preso Daniel Vorcaro.

Coincidência ou não, o ministro relator, Nunes Marques, que conhece bem o estado do Tocantins, concedeu uma liminar levando de volta o governador afastado pela Justiça, Wanderlei Barbosa, à principal cadeira do Palácio Araguaia. As coincidências não param por aí. Nunes Marques é conterrâneo de Ciro Nogueira, nome conhecido por pertencer ao círculo íntimo do banqueiro Daniel Vorcaro.

Essas coincidências levaram Vicentinho a desfrutar de mordomias oferecidas por Vorcaro, pois, no Carnaval de 2025, o banqueiro foi um dos principais financiadores do camarote Alma Rio, instalado na Marquês de Sapucaí. Nesse contexto, o parlamentar caiu no samba durante o desfile das campeãs, mas acabou por revelar suas estreitas relações com o senador Ciro Nogueira, Arthur Lira e Daniel Vorcaro no ambiente pernicioso do escândalo Master, investigado pela Polícia Federal.

Como a PF não dorme no ponto, ela vem rastreando uma engrenagem de corrupção envolvendo empresários, agentes públicos e contratos ligados ao Estado do Tocantins. O nome do parlamentar aparece, de acordo com os investigadores, após o cruzamento entre uma planilha de repasses ilícitos, apreendida durante a investigação, e dados bancários obtidos mediante autorização judicial.

É justamente aí que a Operação Overclean ganha densidade. A Polícia Federal afirma que identificou operações financeiras destinadas à empresa GMD Borba Distribuidora EIRELI, registrada em nome de Gillaynny Marjorie Duarte Borba de Oliveira, apontada no relatório como esposa do deputado.

Os investigadores sustentam que as datas e os valores dessas transferências guardariam correspondência com registros constantes da planilha atribuída ao controle de pagamentos ilícitos, especialmente quando analisadas as anotações vinculadas ao codinome “VIC”. É essa coincidência documental que a PF considera relevante e que passou a integrar os autos do inquérito.

Segundo a investigação, a empresa GMD Borba Distribuidora EIRELI movimentou aproximadamente R$ 170 milhões entre janeiro de 2019 e abril de 2025, registrando cerca de R$ 85 milhões em créditos e R$ 85 milhões em débitos. Para a PF, esse padrão seria incompatível com a estrutura operacional encontrada durante as diligências e indicaria uma empresa utilizada para circulação de recursos, sem atividade econômica proporcional ao volume financeiro.

O núcleo da investigação está ligado a um contrato firmado pela Secretaria da Educação do Tocantins. Conforme o relatório policial, a empresa Larclean Saúde Ambiental, pertencente aos empresários Alex e Fábio Parente, venceu uma licitação para serviços de dedetização após supostas irregularidades que teriam levado à desclassificação de concorrentes com propostas mais vantajosas.

O contrato inicial, de aproximadamente R$ 13,6 milhões, recebeu sucessivos aditivos, alcançando cerca de R$ 59,2 milhões. A Polícia Federal também aponta indícios de preços significativamente superiores aos valores de mercado.

Apesar das conclusões da Polícia Federal, o ministro Nunes Marques, relator do caso no STF, negou os pedidos de busca e apreensão e de bloqueio de bens formulados pela PF.

Foto: STF

Segundo a decisão, naquele momento da investigação, ainda não estavam suficientemente demonstrados os requisitos para as medidas cautelares, especialmente quanto ao nexo entre os pagamentos identificados e a suposta fraude licitatória. A negativa não encerrou a investigação nem representa julgamento de mérito sobre as suspeitas.

No universo das investigações de corrupção, o dinheiro costuma deixar rastros mais eloquentes do que discursos. É por isso que extratos bancários, registros contábeis e planilhas passaram a ocupar espaço central no relatório. A Polícia Federal anuncia, inclusive, que o confronto detalhado entre essas movimentações financeiras e os registros da planilha aparece nas páginas seguintes do documento.

É exatamente essa resposta que a investigação procura obter. E caberá ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Nunes Marques, considerar as provas apontadas ao longo do processo, abrindo a gaveta e colocar o inquérito sobre a mesa. Como tudo acaba em Vorcaro, o rastreamento das contas bancárias ligadas a Vicentinho Júnior faz jus à velha frase: “Siga o dinheiro”.

Fonte: Fatos Online

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