A liquidação da Sefer Investimentos pelo Banco Central (BC) na última sexta-feira (26) completa mais uma etapa do cerco do órgão regulador contra antigos parceiros de Daniel Vorcaro investigados no caso das fraudes do Banco Master. Controlada por Benjamim Botelho, a corretora teve o mesmo desfecho do Banco Pleno, de Augusto Lima, alvo da Polícia Federal (PF) no último dia 18, e da gestora Reag, de João Carlos Mansur.
Por ora, o único ex-sócio de Vorcaro no banco que permanece ileso é Mauricio Quadrado, que tem participação na corretora Trustee DTVM, outra parceira de negócios do Master. Até 2020, Quadrado foi sócio da Planner, corretora que mediou diversas captações de recursos de fundos de previdência pelo banco, incluindo o Rioprevidência.
Botelho e a Sefer, que já se chamou Foco DTVM e Indigo, são citados nas investigações do Master como peças na engrenagem de lavagem de dinheiro construída por Vorcaro para dificultar o rastreamento dos recursos desviados no esquema. A corretora também já foi pivô da Operação Fundo Fake, realizada em 2020 sobre fraudes na captação de recursos de um fundo de pensão em Rondônia na década passada.
Segundo o BC, a liquidação da Sefer foi tomada pelo descumprimento de normas legais e levou ao bloqueio de bens de Botelho. A nota divulgada pela instituição não cita expressamente o caso Master, embora seja público que a Sefer fazia parte do ecossistema de Vorcaro.
“A decretação da liquidação extrajudicial foi motivada pelo comprometimento da situação econômico-financeira da distribuidora, sujeitando seus credores quirografários a risco anormal, bem como por graves violações às normas legais que disciplinam a atividade da instituição”, declarou o BC no comunicado oficial.
Desde a queda do Master em 17 de novembro de 2025, o Banco Central já liquidou outras instituições do conglomerado do banco, como o Will Bank, em janeiro, e mirou instituições que desempenhavam um papel central na estratégia de Vorcaro.
Sefer é velha parceira de Vorcaro
O controlador Benjamim Botelho, de 63 anos, vive em Portugal e renunciou à nacionalidade brasileira em janeiro de 2024 para se nacionalizar no país europeu.
Uma offshore ligada a ele nas Bahamas, o Faex Fund, foi listado entre os ativos do banco de Vorcaro no exterior pelo liquidante do Master, Eduardo Félix Bianchini, na ação em que ele pede que o paraíso fiscal reconheça a liquidação extrajudicial, primeiro passo para que seja feito o arresto dos recursos. Bianchini obteve uma decisão favorável na Justiça das Bahamas no fim de maio.
A parceria de Botelho e Vorcaro, porém, é de longa data.
Na primeira tentativa de assumir o Master (à época chamado Banco Máxima), em 2017, Vorcaro comunicou ao BC que pretendia adquirir 56,87% da instituição por R$ 40 milhões, dos quais R$ 36 milhões pagos em cotas do Brazil Realty Fundo de Investimento Imobiliário, administrado pela Sefer (à época Foco DTVM), e R$ 4 milhões em espécie.
Como mostramos no blog, o Brazil Realty estava no centro das investigações da Operação Fundo Fake, que apurou irregularidades na gestão de fundos de previdência municipais em Rolim de Moura, no interior de Rondônia e outros quatro estados, incluindo o Rio de Janeiro.
Após a investigação chegar à Justiça Federal, em 2019, Vorcaro, Botelho e outros 11 alvos da Fundo Fake foram alvos de mandados de prisão. As cautelares nunca foram cumpridas, contudo, e a ordem judicial acabou anulada meses depois sem que eles tenham sido presos.
O envolvimento da Sefer na Fundo Fake levou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a suspender sua autorização de operação em 2020, mas a decisão também foi derrubada pela Justiça.
De acordo com a CVM, ainda há quatro processos em curso na autarquia contra Benjamim Botelho e a Sefer.
O empresário respondeu a um quinto procedimento que também mirava Daniel Vorcaro e o Master, por causa de irregularidades na captação de R$ 49 milhões com a venda de debêntures de duas empresas. Segundo a apuração da CVM, o dinheiro foi desviado para fundos ligados ao banqueiro e seus sócios, sem remunerar os investidores que compraram os papéis.
A Sefer, que na época ainda se chamava Indigo, atuou como agente fiduciária dos títulos ao mesmo tempo em que controlava indiretamente a empresa que emitiu as debêntures, o que representa um conflito de interesses, já que seu papel era oferecer aos investidores garantias pelo investimento.
Botelho e a corretora firmaram um termo de compromisso e se dispuseram a pagar R$ 300 mil em multas cada, enquanto Vorcaro e o Master se comprometeram a pagar R$ 250 mil e R$ 1 milhão, respectivamente. O processo foi marcado por reviravoltas e controvérsias e o relator do caso virou advogado do banco meses depois, como revelamos na coluna.
Fonte: O Globo



