A célebre frase do ex-governador e ex-ministro mineiro, José de Magalhães Pinto: “A política é como uma nuvem: você olha ela e está de um jeito, olha de novo e ela já mudou,” é contemporânea no xadrez político que se desenha na Capital Federal. A metáfora define a instabilidade, fluidez e constante mudança de cenários e alianças na política brasileira, ressaltando como essas alianças podem se desfazer rapidamente e como os “inimigos” de hoje podem se tornar os aliados de amanhã.
E é nesse tabuleiro de mais incertezas do que segurança, que os partidos políticos do Distrito Federal tentam desesperadamente construir acordos políticos e apresentar candidaturas consistentes, capazes de suportar abalos sísmicos, já que o ambiente é de movimento das placas tectônicas.
Em 04 de outubro deste ano, o eleitor escolherá os próximos deputados distritais, deputados federais, senadores, governadores e o presidente da república. O cenário político no Distrito Federal ainda é uma incógnita, tamanha volatilidade dos acontecimentos que se sucederam nos últimos meses, com especial atenção para o escândalo do Banco Master.
Até poucos meses atrás, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, político centralizador e de muito prestígio popular, gozava de altos índices de aprovação. Ele era tido como um senador eleito. Sua vice-governadora, Celina Leão, compartilhava de igual popularidade. Em praticamente todas as pesquisas de opinião, os votos de Ibaneis e Celina alcançavam a casa dos trinta pontos. Esse resultado estava alicerçado em uma base política formada pela coalizão de oito partidos políticos – MDB, PP, União, Republicanos, PL, PSD, Podemos e PRTB – que elegeu a dupla em 2022.
Acontece que o escândalo do Banco Master bagunçou o tabuleiro político no Distrito Federal e não se sabe ainda quais os personagens que serão definitivamente eliminados ou apenas atrasados na corrida eleitoral da Capital, dadas conexões que o banqueiro Daniel Vorcaro mantinha com várias autoridades em Brasília.
O fato é que o governador Ibaneis Rocha voltou a ser alvo de uma investigação da Polícia Federal em um desmembramento do inquérito que apura as fraudes do Banco Master, que vendeu 12 bilhões de títulos podres ao BRB, que em ato contínuo, decidiu comprar o Master. A operação de aquisição foi publicamente defendida pelo governador Ibaneis Rocha e só não se consumou porque o Banco Central vetou a compra, liquidando o Banco Master.
Nas vésperas do prazo para as desincompatibilizações, há rumores de que Ibaneis teria sido aconselhado a desistir da disputa ao senado, já que no cargo de governador seria mais fácil se desvencilhar do novo inquérito federal. Relembre-se que em situação semelhante ocorrida na apuração da trama golpista do 08 de janeiro, milagrosamente, o governador Ibaneis acabou isentado de qualquer responsabilidade na baderna da Praça dos Três Poderes, apesar da condenação de toda a cúpula da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal.
No início de 2026, a oposição protocolizou um pedido de impeachment de Ibaneis Rocha (MDB) pelo suposto envolvimento com as fraudes do Banco Master. Os pedidos foram arquivados pela CLDF, onde Ibaneis tem maioria.
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, está preso na penitenciária federal de Brasília e ensaia um acordo de delação premiada, na qual promete entregar altas autoridades de todos os Poderes da República.
A nova fase da operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraude na instituição financeira, levou à prisão de Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, Luiz Phillipi Mourão, quem estaria conduzindo o monitoramento de adversários de Vorcaro, e o policial federal Marilson Roseno da Silva, aparentemente também envolvido no caso.
Arquivos do celular de Daniel Vorcaro ganharam o mundo, escarnando uma vida de luxo, sempre ladeado das mais importantes autoridades da república. O banqueiro possuía em seus contatos os números de três ministros do Supremo Tribunal Federal, além de senadores, deputados e do presidente do Banco Central. O material apreendido com Vorcaro ainda não foi totalmente revelado, mas já causa insônia generalizada com o potencial de redesenhar as estruturas de poder existentes no Brasil.
Mensagens extraídas pela PF do celular de Vorcaro sugerem que o banqueiro e Ibaneis Rocha trabalhavam juntos para viabilizar as operações entre o BRB e o Banco Master, colocando-o no centro da operação policial. Segundo especialistas, se confirmado o envolvimento do governador do DF, esse fato poderia ensejar o seu afastamento do cargo público.
Nessa hipótese, a toxidade de Ibaneis seria capaz de afugentar partidos e candidatos, implodindo sua base política.
O PL, que foi um partido estratégico nas eleições de 2022, tenta se descolar da crise do Banco Master e de Ibaneis Rocha, lançando Michelle Bolsonaro e Bia Kicis na disputa ao Senado Federal. É público que o clã Bolsonaro não gosta do governador brasiliense, tido como persona non grata.
Na mesma linha, o deputado distrital do PL, Thiago Manzoni, também parece ter optado por se distanciar de Ibaneis e de seu governo. Ele votou contra o projeto governista de aporte de recursos ao BRB. A retaliação do governador Ibaneis foi imediata, exonerando os indicados do deputado distrital que ocupavam cargos no GDF.
O Ministério Público conseguiu liminar para que a Justiça do Distrito Federal barrasse o uso de imóveis do governo como garantia para capitalizar o BRB – Banco de Brasília – na tentativa de cobrir o rombo provocado no balanço da instituição financeira após as operações com o Banco Master.
Neste novo contexto político, o PL terá de optar entre lançar um candidato próprio ao governo do DF para construir um palanque eleitoral ao presidenciável Flávio Bolsonaro, ou negociar apoio com outras siglas.
Na hipótese de o PL optar por bancar uma candidatura puro sangue, é sempre bom lembrar que o senador Izalci Lucas sempre sonhou com essa oportunidade. Um interlocutor ouvido pelo site disse que o Presidente Nacional do PL, Waldemar da Costa Neto, firmou compromisso com o senador brasiliense de apoiá-lo ao Governo do Distrito Federal quando Izalci migrou do PSDB para o PL. Segundo a mesma fonte, esse compromisso teria sido referendado pelo ex-Presidente Jair Bolsonaro e o senador Rogério Marinho, Líder do PL no Senado.
Ocorre que Izalci e Arruda são amigos e parceiros políticos há décadas, o que dificultaria eventual enfrentamento nas urnas. Correndo em raia própria, José Roberto Arruda (PSD), também sonha em retornar ao cargo de governador. Entretanto, se ele quiser subir a rampa do Palácio do Buriti, terá que convencer primeiro a Justiça Eleitoral de que está elegível. Superado esse obstáculo, Arruda terá que se reconciliar com o eleitor de Brasília. O ex-governador viveu histórias de amor e ódio com o eleitorado brasiliense.
A verdade é que o cenário eleitoral tal como está posto é de pura ebulição e as forças que atuam sobre este tabuleiro político podem provocar a derrocada de pré-candidatos majoritários até o momento da formalização dos registros das candidaturas, fato capaz de embaralhar o jogo na antevéspera da eleição.
Esse fenômeno aconteceu em 2010, quando o governador do DF, José Roberto Arruda, foi afastado pela Operação Caixa de Pandora. Seu vice, Paulo Otávio, renunciou. O Ex-governador Joaquim Roriz, que era indicado pelas pesquisas de opinião como o favorito, teve o registro de candidatura indeferido pela Justiça Eleitoral devido Lei de iniciativa popular nº 135/10, denominada Ficha Limpa, que retirou Roriz da disputa eleitoral. Essa sucessão de fatos imprevisíveis acabou por pavimentar a vitória de Agnelo Queiroz, político de pequena expressão. Vale relembrar que Agnelo disputou a reeleição, em 2014, amargando o terceiro lugar nas intenções de voto, ainda que o PT da Presidenta Dilma Rousseff tivesse injetado bilhões de reais em obras do PAC no Distrito Federal, prestigiando o mandato do petista.
Por outro lado, os partidos de esquerda não conseguem empolgar o eleitor brasiliense com os pretensos candidatos apresentados até agora. Nem Leandro Grass, nem Ricardo Cappelli conseguiram pontuação expressiva nas sondagens feitas na Capital da República e há mais divergência do que consenso entre a ala mais progressista.
De olhos bem atentos às possíveis vagas que poderão surgir, em face de eventual inviabilidade dos postulantes, que até agora gozam de melhor posição no ranking da disputa ao governo do DF, estão o deputado federal, Rafael Prudente (MDB), filho do ex-deputado distrital e presidente da CLDF, Leonardo Prudente, e o Presidente do Tribunal de Contas do DF, Manoel de Andrade, descrito por muitos como um ‘Rorizista’ raiz. “A biografia de Manoelzinho se identifica com a de outros milhares de retirantes nordestinos que vieram para Brasília à procura de uma melhor oportunidade de vida. Apesar de estrar distante da política partidária há décadas, ele é vigoroso e dialoga diretamente com o povo”, disse uma fonte.
Mesmo nunca ter falado diretamente sobre essa pretensão, pessoas ligadas ao Presidente do TCDFT afirmam que ele teria disposição de aceitar o desafio, abdicando de mais de dois anos de mandato na Corte de Contas.
Assim, em razão da possibilidade real de alteração drástica no cenário da disputa político-eleitoral do DF, é prudente que os partidos políticos procurem ter em seus quadros um coringa, capaz de arregimentar outras siglas, empolgar a militância e suportar as devassas pessoais próprias do período eleitoral de 2026.
Portanto, os próximos dias prometem ser eletrizantes no xadrez político da Capital da República, pois alguns eventuais candidatos terão que se desencompatibilizar de cargos de direção superior para se manterem elegíveis. Este será o primeiro de vários obstáculos que deverão ser superados pelos postulantes ao cargo de governador do Distrito Federal.



