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Polarização nos EUA supera a do Brasil, aponta pesquisa

Em um mundo de embates ideológicos, diferenças transnacionais destacam a profundidade da polarização política

Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, eleições recentes têm exposto um padrão global de polarização política. Um estudo divulgado pelo jornal O Globo, conduzido pelo Instituto Locomotiva em parceria com o Pew Research Center, apontou que o abismo ideológico entre eleitores americanos supera, e muito, o observado entre os brasileiros. Comparando dados de temas centrais, a pesquisa revelou que, em média, a distância entre as opiniões de eleitores de Donald Trump e Kamala Harris é mais que o dobro da existente entre os apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro.

O levantamento analisou oito temas centrais: identidade de gênero, posse de armas, família e casamento, religião e política, imigração, mulheres e sociedade, população negra e Justiça criminal. A pesquisa mostrou que, enquanto no Brasil a diferença média entre eleitores de Lula e Bolsonaro foi de 19 pontos percentuais, nos Estados Unidos, o índice chegou a 45 pontos percentuais.

Nos EUA, a maior divergência esteve no tema da posse de armas, com 71 pontos de diferença entre eleitores de Trump e Harris. Apenas 11% dos simpatizantes de Trump rejeitam a ideia de que o armamento seja benéfico para a segurança pública, em contraste com 82% dos eleitores de Kamala Harris. No Brasil, o fosso, embora relevante, é menos drástico: 37% dos bolsonaristas e 69% dos lulistas rejeitam essa política.

Especialistas apontam que esse abismo maior nos EUA reflete o papel mais central de questões identitárias e culturais no debate político. O historiador o historiador Michel Gherman, especialista em extrema direita e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) contou ao jornal O Globo que, “Trump e Kamala representavam projetos diametralmente opostos”, enquanto no Brasil a polarização é suavizada por figuras populistas como Lula, cuja liderança transcende linhas ideológicas tradicionais.

Outros temas também evidenciaram contrastes marcantes. Questões de identidade de gênero geraram uma diferença de 37 pontos entre lulistas e bolsonaristas, mas nos Estados Unidos esse número alcançou 53 pontos. De maneira semelhante, o tópico imigração, que frequentemente polariza debates no hemisfério norte, resultou em 54 pontos de diferença entre os eleitores de Trump e Harris.

Contextos históricos distintos

A disparidade no sistema político de cada país também desempenha um papel central na intensidade das divisões. Enquanto os Estados Unidos têm uma longa tradição bipartidária, com Republicanos e Democratas protagonizando embates históricos desde a Guerra Civil, o Brasil opera em um sistema multipartidário. Atualmente, 29 partidos têm representação política no país.

Essa multiplicidade brasileira favorece uma política de acordos, o que torna mais provável a mediação de conflitos e a redução de extremos, mesmo durante eleições polarizadas como a de 2022. 

Apesar de divergências marcantes, os dois países também compartilham semelhanças, especialmente quando o assunto é segurança pública e criminalidade. No Brasil, eleitores de Lula e Bolsonaro apresentaram apenas três pontos percentuais de diferença em relação à assertiva: “A Justiça criminal no Brasil já é dura o bastante com criminosos?”. Para 23% dos lulistas e 20% dos bolsonaristas, a resposta é positiva.

O papel da polarização nas eleições

A figura de líderes populistas, como Lula e Bolsonaro, é apontada como um fator que dilui tensões ideológicas no Brasil, deslocando o foco para aspectos pessoais. Segundo Gherman, Lula não se enquadra como um líder de esquerda nos moldes americanos, sendo mais associado à agenda de direitos sociais do que aos debates identitários progressistas típicos dos EUA.

Nos Estados Unidos, Trump e Kamala Harris encarnam propostas políticas e ideológicas quase irreconciliáveis, o que explica a magnitude das diferenças registradas na pesquisa.

Fonte: Jornal Opção

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