quinta-feira, 23 julho
20.6 C
Brasília

Mendonça dá xeque-mate em Gilmar e protege delação de Vorcaro

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça enquadrou seu colega Gilmar Mendes com uma manobra jurídica absurdamente inteligente. O ministro não apenas garantiu que Daniel Vorcaro continuasse preso e fizesse a delação, mas também isolou Gilmar e impediu qualquer movimento para soltar o banqueiro criminoso. Foi uma jogada de mestre que encurralou o ministro que se vende como o político mais enxadrista do Supremo.

Primeiro, o cenário: a Segunda Turma do STF estava julgando a prisão de Vorcaro, e o prazo terminou na sexta-feira (14). Três ministros já haviam votado para manter a prisão: o próprio Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. Faltava apenas Gilmar Mendes votar.

E aqui vinha o problema. Segundo a coluna de Malu Gaspar, em O Globo, “Gilmar Mendes vinha indicando a interlocutores que entregaria um voto ‘com recados’ à Corte e à Polícia Federal, e possivelmente até a favor da prisão domiciliar.” Ou seja, Gilmar preparava voto para soltar Vorcaro para prisão domiciliar, alinhado aos interesses dos seus colegas enrolados e da classe política, apavorados com a delação em ano eleitoral.

Mas era ainda pior, porque ainda era possível mudar o voto até que se encerrasse o julgamento virtual. Se houvesse uma mudança, num placar de dois a dois, Vorcaro seria solto. “Entre os próprios ministros do Supremo se cogitava a possibilidade de o grupo de Gilmar, Alexandre de Moraes e Toffoli convencer Nunes Marques a mudar de opinião”, disse a matéria. O trio Gilmar-Moraes-Toffoli articulava nos bastidores para virar o voto de Nunes Marques. Se conseguissem, com o placar de dois a dois, Vorcaro seria solto.

E a pressão era real. Segundo O Globo, “Nunes Marques, ao longo dos últimos dias, sofreu pressão nos bastidores para mudar o voto.” O cenário era este: Gilmar preparando voto para soltar, o trio Gilmar-Moraes-Toffoli pressionando Nunes Marques, e prazo até sexta para mudarem tudo.

E o que André Mendonça fez? Uma jogada genial, que deixou Gilmar Mendes sem chão e literalmente sem espaço para manobras ou “milagres” — nome que ele mesmo usou para designar a antessala de seu gabinete, chamando-a de “pátio dos milagres”. Realmente, ali é um lugar onde a realidade da Constituição, das leis e até dos fatos pode ser rompida.

Mendonça transferiu Vorcaro da penitenciária federal para uma sala na Polícia Federal (PF) antes mesmo da conclusão do julgamento. Esse tipo de transferência é feita numa delação para facilitar a condução de relatos e depoimentos feitos à polícia, mas a transferência, neste momento, teve outros efeitos. Com ela, Mendonça esvaziou o voto de Gilmar e protegeu Nunes Marques da pressão, ao criar um fato consumado.

De fato, ao transferir Vorcaro para a PF, Mendonça esvaziou o argumento de que não haveria motivos para manter o ex-banqueiro em penitenciária federal. As condições da prisão na polícia são, em geral, melhores do que as do presídio, onde as regras são mais rígidas — na polícia, por exemplo, não se raspa o cabelo do preso e é possível introduzir alimentos ou até equipamentos como televisão.

Ou seja, a prisão na polícia é uma espécie de meio-termo entre penitenciária e prisão domiciliar. Mais que isso: Mendonça sinalizou oficialmente que a delação já está em curso, dificultando qualquer reviravolta. Vorcaro já está falando e, inclusive, já assinou termo de confidencialidade entre ele, a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR). Tarde demais para salvar quem quer que seja.

Mendonça usou suas prerrogativas como relator para criar condições fáticas que tornam inviável reverter a decisão. É perfeitamente legal, mas executado num momento perfeito. Uma decisão, múltiplos efeitos: mantém Vorcaro preso, facilita a delação, esvazia o voto de Gilmar, protege Nunes Marques da pressão e sinaliza que o trem já partiu.

A ironia perfeita é que Gilmar Mendes, que se vende como o grande estrategista político do STF, o mestre do xadrez jurídico, foi completamente superado pelo “terrivelmente evangélico” André Mendonça. Gilmar preparou seu voto “com recados”, articulou nos bastidores, mobilizou Moraes e Toffoli, pressionou Nunes Marques. E no final? Mendonça simplesmente anulou toda a estratégia com uma decisão certeira.

O ministro que todos subestimaram mostrou que inteligência jurídica, somada à coragem moral, pode vencer maquinações políticas. Gilmar perdeu o sono planejando como salvar Vorcaro. Mendonça dormiu tranquilo, sabendo que já havia garantido a vitória.

Parabéns, ministro André Mendonça. O senhor provou que não precisa de articulações nos bastidores, pressão sobre colegas ou votos “com recados”. Basta fazer o que a lei manda com inteligência e determinação. E mostrou ao ministro que se acha o grande enxadrista do Supremo que xadrez se joga com as peças da lei, e não com telefonemas.

Fonte: Gazeta do Povo

Mais vistas

Master repassou R$ 3,6 bilhões em dívidas para gestora investigada

O Banco Master repassou ao menos R$ 3,6 bilhões em créditos de...

Empresário foi morto após ser atraído para emboscada por amigo

O empresário Marcelo Magalhães de Almeida, de 31 anos, morto...

SP: coronéis da PM são citados em investigação contra banco do PCC

Nomes de integrantes da cúpula da Polícia Militar do...

Governo deve se reunir com setores afetados por tarifaço dos EUA

O governo deve se reunir com representantes dos setores...

PM morta em BH tinha marcas de chicotada; marido alega sexo consensual

Belo Horizonte – A capitã da PMMG Michele Leão Azevedo,...

Últimas Notícias

Master repassou R$ 3,6 bilhões em dívidas para gestora investigada

O Banco Master repassou ao menos R$ 3,6 bilhões em créditos de...

Empresário foi morto após ser atraído para emboscada por amigo

O empresário Marcelo Magalhães de Almeida, de 31 anos, morto...

SP: coronéis da PM são citados em investigação contra banco do PCC

Nomes de integrantes da cúpula da Polícia Militar do...

Governo deve se reunir com setores afetados por tarifaço dos EUA

O governo deve se reunir com representantes dos setores...

PM morta em BH tinha marcas de chicotada; marido alega sexo consensual

Belo Horizonte – A capitã da PMMG Michele Leão Azevedo,...

Sargento leva esposa capitã da PM morta a hospital em BH e é preso

Belo Horizonte – Um sargento da Polícia Militar de Minas Gerais foi...

Master repassou R$ 28 milhões a secretário após ser autorizado a operar cartão consignado

O Banco Master registrou ter emprestado R$ 28 milhões a empresas...

Real Time Big Data: 50% desaprovam governo Lula e 46% aprovam

O trabalho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é...
spot_img

Artigos relacionados

Categorias Populares

spot_imgspot_img