O apartamento ainda não havia sido periciado quando o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto chegou e tentou entrar. Do lado de fora, policiais já haviam delimitado o espaço. O oficial foi preso na última quarta-feira (18/3) por feminicídio. Ele alega que a vítima, sua esposa, a soldado Gisele Alves Santana, cometeu suicídio.
O primeiro bloqueio ao oficial da Polícia Militar veio de um cabo. Ele aponta para outro policial, reforça que o imóvel está isolado e sugere que qualquer conversa ocorra fora dali. A cena exige contenção. O coronel ouve, mas não recua. Avança.
Mesmo diante da recomendação de um amigo, o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, que sugere que ele não entre, o oficial segue em direção à porta e atravessa o limite que, naquele momento, separava o ambiente de uma investigação ainda intacta do início de uma possível contaminação.
Dentro do apartamento, onde o chão da sala ainda estava tomado pelo sangue de Gisele, o cuidado é visível, ao menos por parte dos policiais, que, contrariados, acompanham Geraldo Neto.
Ambiente não mais estático
O coronel circula, olha os cômodos, questiona o posicionamento de objetos, estranha posições, comenta o que vê. Em determinado momento, pede água. Um policial atende. Vai até a cozinha, retorna com uma garrafa, sempre desviando das marcas no chão.
Do lado de fora, o clima muda. A tensão deixa de ser silenciosa.
“O cara vai lavar a mão, caralho”, diz um cabo, em voz alta, dirigindo-se a um superior. A frase, registrada em inquérito da Polícia Civil, traduz o que já parecia evidente para quem acompanhava a cena sobre o risco concreto de perda de vestígios.
“Se tomar banho, vai perder tudo os baguio [vestígios] da mão”, afirmou o mesmo policial, como registrado por câmeras corporais usadas por PMs no local.
A referência é direta ao exame residuográfico, capaz de identificar resíduos de disparo nas mãos de quem atirou. Um banho, naquele momento, poderia comprometer esse tipo de prova.
Ainda assim, a discussão sobre permitir ou não que o coronel se lavasse acontece entre os próprios policiais, que reconhecem, em meio às falas, estarem diante de uma “situação difícil”. A hierarquia pesa. As decisões não são lineares.
Dentro do apartamento, a cena segue em movimento. Fora dele, permanece a tentativa de preservar o que já pode ter sido alterado.
Para os investigadores, a entrada no imóvel, a circulação interna e a possibilidade de higienização passaram a ser pontos centrais para avaliar a eventual interferência na cena do crime. O caso, que inicialmente foi tratado como morte a esclarecer, evoluiu para uma investigação por feminicídio, com suspeitas de fraude processual.
Isso ficou reforçado com o registro, em áudio e vídeo, de câmeras corporais que mostram policiais tentando conter o próprio superior, enquanto a cena, aos poucos, deixava de ser intocada.
Fonte: Metrópoles









