Brasília gosta de fingir que o poder mora apenas nos palácios. Não mora. O poder também voa.
Por Mino Pedrosa
Na capital do país, centro nervoso, político e econômico, sem esquecer do Judiciário, o poder raramente se manifesta apenas nos palácios. Ele também se desloca. Às vezes, decola.
Na sexta-feira, 6, um avião jato executivo partiu de Brasília rumo a Uberaba, em Minas Gerais, cidade que, no calendário político do governador Ibaneis Rocha, se estende misturando-se com o privado quando o assunto é influência. Ali não se vota projeto de lei. Arremata-se genética.
O leilão de Nelore PO reuniu, desta vez, criadores inesquecíveis, investidores sem muita disposição e conhecidos empresários que possuem contratos milionários com o GDF e que transitam com desenvoltura nos meandros licitatórios. Como organizador responsável pelo leilão, evento que recentemente era disputado corpo a corpo para ganhar visibilidade com o governador do DF, Ibaneis Rocha, o empresário Ronaldo Alves de Souza é ponta de lança e parceiro do poder em Brasília. Segundo os bastidores, ele é nome que, na gestão de Ibaneis, passou a circular com frequência nos sistemas administrativos do Distrito Federal.
Ronaldo não ocupa cargo público. Não discursa. Não tem mandato. Mas construiu presença empresarial relevante no governo local por meio das empresas Esfera Construções Metálicas LTDA e RS Transportadora e Construções Civil LTDA. Os contratos são formais, publicados, legalmente firmados, mas o empresário usa uma ata de preços que permite, por lei, esquivar-se das licitações. Ainda assim, o ritmo de expansão despertou curiosidade política e no Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT).
Parlamentares enviando emendas para as administrações regionais e autarquias no GDF ajudam na prestação dos serviços. Nos bastidores, comenta-se sobre a proximidade entre Ronaldo Alves e o governador Ibaneis Rocha. Comentários, em Brasília, são moeda corrente. Alguns exageram. Outros antecipam fatos. O que se sabe oficialmente é que o empresário tornou-se figura conhecida no entorno do poder e ampliou seus negócios de forma consistente na gestão do emedebista.
O agro, por sua vez, virou ponto de encontro do poder brasiliense. O Nelore de pura origem não é apenas gado. É símbolo de patrimônio, status e liquidez. Leilões em Uberaba e Brasília reúnem empresários, autoridades e investidores em um ambiente onde negócios privados convivem com relações públicas.
O evento era aguardado com expectativa elevada. O momento político, porém, já não era o mesmo de meses atrás. O desgaste que cerca o governador produziu reflexos visíveis. Algumas figuras tradicionais do circuito de leilões preferiram não aparecer. Outras compareceram discretamente.
Entre os presentes estavam os empresários Eugênio Lacerda, proprietário da empresa Construtora Artec S.A., e Agenor Neto, proprietário da Setec Segurança Eletrônica e Telecom Ltda., ambos mantêm contratos milionários com o poder público distrital. Nada irregular nisso. Os empresários também embarcaram em jatinho, mas, diante do ambiente no leilão, arremataram duas vacas cada um, deixando Ibaneis mais conformado com a baixa dos convidados. O Brasil funciona assim há décadas. Empresários contratam com o Estado e frequentam os mesmos espaços sociais que os agentes políticos.
Na foto, à esquerda Flavinho, à direita Eugênio Lacerda e ao fundo Agenor Neto
A questão não é jurídica. É simbólica.
Brasília sempre foi uma cidade onde as fronteiras entre o público e o privado se encontram em eventos, confraternizações e ambientes de negócios. A diferença está na percepção. Quando a política atravessa momento delicado, qualquer proximidade ganha outra leitura.
Ronaldo Alves de Souza também consolidou atuação no setor agropecuário. Tornou-se criador de Nelore PO, frequentador de leilões de elite e presença constante no circuito rural de alto padrão. Crescimento empresarial não é crime. Proximidade política não é ilegal. Mas, em Brasília, coincidências são sempre observadas com lupa.
Recentemente, há quase três meses, Ronaldo Alves vendeu para o governador Ibaneis 30 milhões de reais em gado de excelente genética.
O que fica do episódio de Uberaba não é a venda de animais nem o número de arremates. É a fotografia. O poder que viaja junto. O empresariado que circula junto. O ambiente que mistura contratos públicos e negócios privados sob a mesma atmosfera social.
Tudo formal. Tudo documentado. Tudo dentro da lei.
Mas Brasília nunca foi apenas sobre legalidade.
É sobre relações.
E relações, na capital da República, valem tanto quanto votos.
O Ministério Público ali, com lupa, tentando enxergar se existe o “toma lá, dá cá”.
Fonte: Fatos Online



