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Escândalo Master: “O tempo e o senhor da razão”

Resquícios da velha República se unem em torno da principal cadeira do Palácio do Buriti, coração do centro nervoso do Brasil

Por Mino Pedrosa

O rugido abafado da Leoa enfrentou em silêncio o jogo bruto do poder e aplicou a máxima: quando o silêncio é defesa, traição vira método arcaico.

Na política do Distrito Federal, nada é exatamente o que parece. E quase tudo acontece longe dos holofotes. Foi nesse ambiente de ruídos seletivos, gestos calculados e silêncios ensurdecedores que a vice-governadora Celina Leão aprendeu a trabalhar em silêncio. Não por opção. Por necessidade. Quando o resultado mostra eficiência, os louros ficam para o fogo amigo.

Celina tem traquejo. Tem leitura de cenário. E tem resistência. Apelidada de “Leoa” nos bastidores, virou alvo permanente do chamado fogo amigo — aquele que não explode, mas corrói. Ataques sorrateiros, sabotagens silenciosas, isolamento político. Ainda assim, atravessou ilesa o período mais controverso da gestão do Banco de Brasília (BRB), quando decisões improvisadas e operações mal explicadas passaram sob o radar do poder central.

À frente do banco estava Paulo Henrique Costa, protegido político do governador Ibaneis Rocha. E ali o problema nunca foi técnico. Sempre foi político.

Paulo Henrique manteve distância deliberada de Celina Leão. Não por acaso. Não por agenda cheia. Mas por cálculo. Via-se — e trabalhava para ser visto — como o candidato ideal de Ibaneis Rocha à sucessão no Palácio do Buriti. E, nesse projeto pessoal, Celina era um obstáculo, não uma aliada.

O método foi simples e eficaz: ignorar. Nenhum chamado atendido. Nenhuma demanda respondida. Nenhuma interlocução construída. Paulo Henrique sabia que a vice-governadora não tinha força real dentro da engrenagem decisória do governo. Sabia que o governador concentrava poder, exigia subserviência absoluta dos subordinados e distribuía prestígio conforme a conveniência do momento. E apostou nisso.

O dogma antigo voltou à cena: vice não manda, vice espera. Paulo Henrique levou a máxima ao extremo. Assistia de camarote ao tratamento desigual dentro do próprio governo, certo de que sua lealdade direta ao governador lhe garantiria blindagem e projeção.

A ambiguidade de Ibaneis Rocha fez o resto. Rigoroso com uns, permissivo com outros, o governador conduziu o governo como quem administra um condomínio de interesses. A fidelidade pessoal passou a valer mais do que a institucionalidade. Eficiência virou detalhe.

A nomeação de Paulo Henrique Costa escancarou esse modelo. Indicado por Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas, ele chegou ao BRB com padrinhos fortes e autonomia política. Não era um técnico isolado. Era peça de um jogo maior. O mesmo grupo que sustentou sua ascensão já havia, inclusive, recusado convite anterior do próprio governador para integrar formalmente o governo. A relação sempre foi de força, nunca de submissão.

O resultado foi previsível: um governo com centros de poder paralelos, agendas ocultas e disputas travadas no subsolo da política. Celina Leão percebeu cedo. E escolheu sobreviver.

Sem confronto público. Sem bravatas. Sem discurso inflamado. Optou pelo silêncio estratégico — aquele que não é fraqueza, mas defesa. Em Brasília, falar demais costuma custar caro.

E foi nesse mesmo ambiente que veio o golpe mais revelador. Longe dos microfones, Ibaneis Rocha passou a dizer a amigos pessoais e integrantes do próprio governo que seu candidato à sucessão seria Paulo Henrique Costa. Tudo feito em reservado. Tudo longe da vice-governadora. Celina não foi avisada. Não foi consultada. Não foi sequer considerada.

A mensagem era clara: o jogo estava em andamento. E ela estava fora da mesa.

Agora, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, intimado na primeira semana de fevereiro a depor na Polícia Federal no escândalo do Banco Master, vai tentar explicar tecnicamente o inexplicável: o desaparecimento de cerca de dois bilhões e meio. Valores que restaram após a substituição dos ativos podres por papéis realmente garantidos. O problema está na diferença na troca de ativos: faltou aproximadamente R$ 2,5 bilhões, que ficaram perdidos no ar entre o Brasil e ilhas em paraísos fiscais.

Paulo Henrique prepara sua defesa técnica, municiado por escritórios de juristas renomados e por um economista que já pertenceu ao núcleo duro do Partido dos Trabalhadores. Pretendem mostrar ao Banco Central que não havia necessidade de liquidação do Banco Master nem de intervenção no BRB.

Hoje, à luz do dia, enxerga-se uma coalizão de partidos que fazem oposição ao poder central, à cadeira principal na capital do Brasil.

 

 

Fonte: Fatos Online

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