Região vulnerável sofre nova inundação; moradores relatam perdas e cobram ação do poder público.
A Ilha da Pintada, localizada no bairro Arquipélago, em Porto Alegre (RS), voltou a ser duramente atingida pelas águas do Rio Jacuí, após as intensas chuvas que voltaram a castigar a região nas últimas semanas. A área, considerada de alto risco de inundação pela Defesa Civil, já havia enfrentado graves alagamentos entre abril e maio de 2024. Agora, moradores e comerciantes novamente somam prejuízos e relatam a falta de apoio estrutural por parte do poder público.
Com o nível do Lago Guaíba acima da cota de inundação, ruas ficaram alagadas e imóveis foram invadidos pela água. Comerciantes, como Alexandre Rossato, dono de uma marina local, estimam novos prejuízos: “Nosso galpão está com água até a cintura e tivemos que suspender às pressas parte das 230 motos aquáticas sob nossa responsabilidade”, contou. No ano passado, Rossato registrou perdas de R$1,2 milhão com a cheia. Desta vez, o valor ainda é incerto, mas ele já suspendeu as operações.
Segundo Rossato, a situação se agravou devido ao assoreamento do rio, que vem alterando o canal de navegação: “Até uma nova ilha se formou. A água agora sobe mais rápido”, destacou o empresário, que também abrigou 11 famílias em apartamentos da marina.
Moradores relatam recorrência de enchentes e insegurança
A agente de educação Paola Sum, de 31 anos, foi uma das moradoras que precisou deixar sua casa com o filho e a mãe, após a água atingir o interior da residência. “Colocamos os móveis mais caros em cima de pallets e saímos antes de ficarmos ilhados. A água chegou na altura da cintura na frente de casa”, relatou.
Paola vive há 14 anos na ilha e diz que nunca viu tanta água até às cheias dos últimos dois anos. Desde 2023, foram pelo menos quatro grandes inundações. “Minha impressão é que está piorando. Em maio do ano passado, a água quase chegou ao teto”, relembrou.
Comunidade quilombola também sofre com a cheia
Espaço tradicional da resistência negra, o Quilombo da Resistência, que também abriga a Quitanda da Bia, voltou a ser atingido pela água. É a terceira enchente desde novembro de 2023. A líder comunitária Beatriz Gonçalves Pereira, a Bia da Ilha, explicou que o cenário atual é preocupante, embora menos catastrófico que em 2024.
“As ilhas estão alagadas, mas há áreas em que ainda se caminha. O problema é que pode voltar a chover forte, e tudo o que cai nas cabeceiras dos rios Taquari e Jacuí vem parar aqui no Guaíba”, alertou Bia.
Ela também destaca os efeitos colaterais da crise, como o corte de energia elétrica, que afeta a comunicação, conservação de alimentos e até a saúde de moradores que dependem de aparelhos eletrônicos. Apesar das dificuldades, Bia reforça o espírito comunitário: “Somos resistência. Os vizinhos se ajudam, dividem abrigo, e com o apoio de órgãos públicos que distribuem alimentos e água, vamos nos reerguer”.
Previsão preocupa moradores da Ilha da Pintada
A previsão de novas chuvas acende o alerta entre os moradores. A Defesa Civil de Porto Alegre ainda não se pronunciou oficialmente sobre as medidas emergenciais na Ilha da Pintada até a publicação desta reportagem.
A região, que integra o Delta do Jacuí, recebe grande volume de água dos rios que compõem a bacia hidrográfica do Lago Guaíba. Especialistas e moradores cobram ações preventivas, como o controle do assoreamento, melhoria do sistema de drenagem e estratégias de adaptação para evitar que novas tragédias se repitam.
Fonte: Agência Brasil



